Travões de Disco na Estrada – Sim ou Não?
Antes de mais, queria desejar-vos um excelente 2016! Que seja um ano cheio de conquistas e com muita saúde!
Para os que nunca tiveram oportunidade de ler algumas publicações que fiz no meu perfil pessoal e não sabem quem sou, vou apresentar-me de forma muito breve: José Correia; sou estudante – frequento o 2º ano da Licenciatura em Gestão do Desporto na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa; costumo dizer que o ciclismo me descobriu pois não tinha nenhuma ligação à modalidade, e hoje, posso dizer que sou completamente fascinado e apaixonado pela modalidade; escreverei a título pessoal sobre o ciclismo em geral, desde as organizações que o compõem à mecânica.
Hoje, trago-vos um tema bastante atual e que muito tem dado que falar: Tavões de disco no pelotão profissional!
Recentemente, a UCI (União Ciclista Internacional – órgão máximo do ciclismo a nível mundial – “a nossa FIFA”, como costumo exemplificar para os que não conhecem a modalidade) aprovou a introdução dos travões de disco no pelotão profissional, podendo assim, ser utilizadas bicicletas dotadas deste sistema em competições oficiais. Aqui começam a surgir os problemas porque não se impõe a utilização de travões de disco, apenas a sua permissão, o que não abona à verdade desportiva do espetáculo que é o ciclismo. Mas antes de “atacar a questão”, vou abordá-la de várias perspetivas: da bicicleta, do atleta/ciclista, do mecânico e do mercado.
Pessoalmente, julgo ser mais importante atualizar a popular regra do peso mínimo (pelos padrões atuais, nenhuma bicicleta do pelotão pode ser utilizada em competição tendo um peso inferior a 6.8kg) do que a inserção deste novo sistema de travagem no pelotão. Porquê? Muito simples, a regra do peso mínimo, foi criada (há 16 anos) para garantir que todos os atletas competiam com as bicicletas com o mesmo peso mínimo e que a partir daí seriam estruturalmente íntegras uma vez que nos tempos da criação da norma estavam a começar a ser explorados novos materiais que permitiriam criar novas técnicas de produção, e consequentemente, atingir pesos mais baixos. Como disse, esta norma tem 16 anos, e ao longo de todo esse período a indústria evoluiu imenso, e em resultado de toda essa evolução, conseguimos ter bicicletas perfeitamente seguras e íntegras com pesos inferiores a 6.8kg. Até onde poderá ir um novo peso mínimo? Não sei… Mas como em todas as matérias, o peso final será resultado de um consenso e nunca será o “peso perfeito”. Relativamente a este assunto, os fabricantes também vão ter uma palavra a dizer.
Voltando ao tema de hoje, os travões de disco são uma progressão natural dos sistemas de travagem mais tradicionais, tanto na versão mecânica como hidráulica (acionados por cabo ou fluido – óleo). Esta progressão, por mais natural que possa ser, faz deles “perfeitos”!? Não! Em jeito de comparação, a progressão natural que os carros de F1 tiveram e nível de motores está longe de ser consensual pois foram substituídos os motores V10 por V6 assistidos por motores elétricos (perfeitamente em linha com a evolução tecnológica e industrial dos dias de hoje!).
Posto isto, até que ponto é que esta mudança produz impacto na modalidade? Como introduzi, vou abordar o tema nas várias óticas acima mencionadas:
- Bicicleta – De facto, quem vê as bicicletas de hoje pensa que saíram de um laboratório, e não estão enganados, saíram mesmo de um laboratório! Os processos de criação, design e engenharia são altamente sofisticados. Muitas tecnologias foram adaptadas da engenharia aeroespacial e até da indústria bélica, mas no que aos travões de disco diz respeito, é uma tecnologia bastante testada na bicicleta de todo o terreno (BTT) tendo sido desenvolvida para aumentar a capacidade de doseamento da potência de travagem e a performance em condições extremas (principalmente em terreno enlameado). Agora surge a pergunta: de facto é uma tecnologia bastante testada, mas será que é ideal para a bicicleta de estrada? Não, pelo menos para já! Porquê? Precisamente por faltar um sistema específico. As temperaturas, forças e tempos de travagem gerados são diferentes, por isso mesmo, é necessário investir em algo específico com materiais próprios, testar e trazer para o mercado. No fundo, o que quero dizer é que não devemos introduzir travões de disco provenientes da BTT, reduzir o tamanho do disco e modificar o circuito de óleo para ser incorporado nas manetes, isto não chega! Quanto ao design e integração deste sistema na bicicleta ainda precisamos de estudar melhor a localização e fixação deste sistema. O tempo dirá se este sistema será ou não o ideal.
- Atleta/Ciclista – Para um ciclista de lazer acredito que este sistema ofereça uma maior segurança em condições adversas uma vez que, este último, poderá ter pouca habilidade técnica em termos de condução e um pequeno acréscimo de potência de travagem pode ajudar a colmatar essa falta de destreza. Quanto ao ciclista competitivo ou atleta, na falta de um sistema específico não posso negar que é melhor em condições extremas, mas por outro lado, existem muitos problemas associados, tais como: trocas de roda ficam muito mais lentas; em caso de queda coletiva existe um elevado risco de queimadura e laceração de tecidos; em caso de problema mecânico, “desenrascar” é impossível ou torna-se demasiado lento obrigando a uma substituição imediata de bicicleta, o que dependendo da situação de corrida, pode ser muito rápida ou muito lenta.
- Mecânico – Os mecânicos são peças essenciais de qualquer equipa, trabalham horas a fio e muitas vezes não é suficiente. Este sistema, representa um acréscimo significativo de carga de trabalho para os mecânicos uma vez que as reparações nunca serão tão simples como substituir “um cabo de travão”, a substituição de pastilhas é a única coisa que este sistema tem de simples e é quando não existem outros problemas associados que podem levar ao sangramento de todo o sistema. Desta forma, ou se criam ferramentas mais intuitivas e eficazes para reduzir o tempo de qualquer manutenção/reparação ou então terá de ser um ponto a estudar no decorrer do processo de desenvolvimento de um sistema específico para as bicicletas de estrada.
- Mercado – Como alguns sabem, o pior que pode acontecer ao mercado é estagnar, e por isso, os grandes fabricantes começaram a lançar modelos dotados deste sistema de maneira a agitar e segmentar o mercado, tentando, através de novos argumentos, chegar a novos clientes e sugerir uma nova alternativa aos atuais clientes. Então, mas é só isto!? Sim… vejamos, as bicicletas de estrada têm travões (que por acaso, têm evoluído imenso), certo? Certo! O que o mercado está a fazer, é acrescentar isto: “de disco” …porque travões, já têm!
Em suma, a progressão tecnológica é natural e deve ser encarada com a mesma “naturalidade”, agora, não é ser altamente conservador continuar a defender o atual sistema. Os travões de disco não vão anular quedas nem vão garantir um melhor espetáculo, são apenas uma alternativa que o tempo e o seu desenvolvimento se encarregarão de dizer se é a mais acertada ou não.
José P. Correia
Foto: roadcyclinguk.com


