Carlos Ribeiro: “ficaram muitas corridas por fazer, muito suor por perder”

Há pouco mais de um mês Carlos Ribeiro partilhava com a sua segunda família, a do ciclismo, a triste notícia do seu abandono do ciclismo profissional: “Infelizmente a saúde tem que estar à frente de tudo e por isso o ciclismo profissional para mim acabou”, escreveu na sua página do Facebook.

A Roda na Frente esteve à conversa com o antigo corredor da W52 – Quinta da Lixa que nos revelou algumas curiosidades do passado e a forma como encara o futuro.

Natural de Lordelo, Paredes, Carlos Ribeiro teve uma infância feliz: “Posso dizer que tive uma infância feliz, graças à minha família e amigos. O único problema foi mesmo ter que estudar. A minha mãe mandava-me para a secretária, passava lá horas, mas a maior parte do tempo era a dormir em cima dos livros. Como também “fugia” muitas vezes de bicicleta e voltava tarde, lembro-me da minha mãe me furar os pneus. O que não adiantava muito porque eu arranjava ou comprava logo outros”.

Reavivar a memória é tarefa fácil para Carlos Ribeiro. Como era a primeira bicicleta? E a primeira queda como foi? A resposta foi pronta: “Fui comprá-la a casa de um colega meu, recordo-me como se fosse hoje. Era um quadro de ferro vermelho e azul com material sachs de oito velocidades. Vim logo nela para casa com pedais de encaixe e tudo. Consegui encaixa-los bem só que tirá-los… quando cheguei a casa ao tentar parar caí logo” – gargalhadas.

Carlos Ribeiro

Aos 13 anos ingressava na Associação Desportiva e Recreativa Ases de Penafiel – ADRAP, como juvenil de primeiro ano, decorria o ano de 2004. Entrou para a escola de ciclismo através de um amigo do pai, que tinha um filho na equipa: “Ele tinha lá o filho a correr e aconselhou-me a ir para lá também. Entrei em contacto com o Diretor da equipa, Sr. Joaquim Ferreira, e entrei logo”, explicou.

Com 11 anos de ciclismo Carlos Ribeiro confessa que: “os maiores resultados foram os terceiros lugares na Taça de Portugal e os terceiros lugares no Campeonato Nacional de Contrarrelógio, em 2013 e 2014. Em 2014 também consegui ganhar uma etapa, fazer segundo noutra e alcançar a camisola vermelha na Volta a Portugal do Futuro”.

Tal como acontece com a maioria dos atletas a passagem para o escalão Sub 23 foi tudo menos fácil. Deixar o ciclismo foi uma hipótese real: “não por vontade minha, mas por tudo o que aconteceu. Eu e outro grande amigo tivemos logo um começo um pouco difícil pois a equipa que íamos foi uma desilusão em muitos aspetos. Com ajuda de algumas pessoas conseguimos arranjar outra equipa, na altura o Mortágua. Lá aprendi muito mesmo. Fico muito grato ao Sr. Pedro Silva pois cresci muito com ele”, explicou Carlos Ribeiro.

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Precisamente já na equipa de Pedro Silva, Carlos Ribeiro haveria de ser chamado à Seleção Nacional: “recebi a notícia com admiração pois nunca tinha ido à seleção e com muita alegria pois sempre desejei que acontecesse. Na altura andava na Anicolor e foi o Sr. Pedro Silva que me disse que tinha sido convocado para os Campeonatos da Europa de Sub 23. Fiquei mesmo muito contente” – sorriso rasgado.

A 27 de julho de 2015, a quando da realização do Circuito das Festas da Cidade de Lousada, Carlos Ribeiro caiu inconsciente, após ficar sem ver durante alguns segundos. Dias depois, voltou a acontecer o mesmo enquanto treinava e decidiu ir ao hospital.

Foram tempos difíceis, mas com esperança que estivesse tudo bem pois fui fazendo vários exames, em diferentes médicos e não acusavam nada. Como os sintomas tinham de vir de algum lado, os exames continuaram até que um mostrou o problema. Durante aquele tempo nunca quis acreditar que tinha um problema no coração e muito menos que tinha de deixar de correr”, confessou.

Após vários exames inconclusivos, em dezembro um haveria de lhe trazer a pior notícia da carreira: um bloqueio completo na parte direita do coração. Consequência: fim de carreira.

“Quando recebi a notícia não queria acreditar nem aceitar a realidade. Foi depois de conversar com o médico, amigos e staff da equipa que me convenci que ao continuar metia a minha vida em risco. Aí é que me “caiu mesmo a ficha” e percebi que não havia outra solução senão parar.

Naquele momento como em toda a sua carreira a Família, a Namorada e os Amigos foram fulcrais para o auxilio: “estiveram sempre lá para me apoiar, levantar a cabeça e ajudar em tudo o que podiam”.

A carreira de ciclista chegou ao fim e com ela os sonhos: “ficaram muitas corridas por fazer, muito suor por perder, muito sofrimento e muita ambição. Gostava muito de conseguir correr lá fora, numa equipa Pro Tour. Conseguir evoluir mais como ciclista. Ficou a incerteza se teria capacidades ou não”.

Para Carlos Ribeiro: “o Ciclismo é o melhor desporto do Mundo. Aconselho toda a gente a andar de bicicleta, por lazer ou competição. Para mim a competição é uma loucura! Passamos por momentos incríveis e inexplicáveis. Só mesmo quem passa por eles sabe do que falo. É também uma modalidade de muito sofrimento, mas para quem gosta, o sofrimento vira prazer”.

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À Roda na Frente, Carlos Ribeiro, revela que o futuro passa pelo ciclismo, mas de forma diferenciada: “em princípio vou trabalhar numa loja de bicicletas e ser mecânico numa equipa de ciclismo”, descreveu.

Aos jovens deixa uma mensagem: “se gostam de ciclismo pratiquem! Nunca desistam e acreditem sempre que são capazes de ir mais longe. O ciclismo vai ajudar-vos a ser pessoas mais duras e crescidas, vai dar-vos, com certeza, muitos bons momentos que mais tarde ides recordar com saudade e alegria. O ciclismo é a melhor coisa do mundo, aproveitem”.

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