E se Portugal fosse a maior incubadora de ciclistas da Europa?

Uma vez mais, as responsabilidades académicas não me têm permitido ser consistente relativamente à escrita, mas a reflexão e a vontade nunca diminuíram. Hoje, trago-vos algo diferente.

Num passado recente, e mesmo até aos dias que correm, o nosso país tem sido um dos melhores “produtores” de atletas de alto rendimento de todo o Mundo nas mais diversas modalidades. Para que isto seja possível, existem vários requisitos a cumprir, nomeadamente, a existência de meios materiais; estruturais; técnicos; financeiros e, por fim, mas não menos importante, conhecimento.

Infelizmente, a situação atual está muito longe de ser ideal porque muito poucas modalidades se podem gabar de ter o mínimo de condições de trabalho. Mas, mesmo assim, continuamos a conseguir ter atletas a competir ao mais alto nível e sempre com resultados de mérito. Imagine-se o que não conseguiríamos fazer atenuando ou anulando (na melhor das hipóteses) estes handicaps.

E como é que isso se aplica ao ciclismo português?

Não fugindo à tendência nacional, o ciclismo português, em todas as suas vertentes, tem revelado imensos atletas com imenso potencial, que quando devidamente desenvolvidos, se tornam atletas de Elite Mundial. E, sobre isto, a história do ciclismo português, fala por si.

Mas o que é que isso significa? Que geneticamente os portugueses são superiores? Que treinam mais do que os outros?

Não, significa que mesmo não tendo todas condições desejáveis para um desenvolvimento sustentável da sua carreira, lá vão conseguindo de alguma maneira.

E como é que vão conseguindo?

Felizmente, cumprimos alguns dos requisitos básicos para o desenvolvimento de atletas por intermédio dos nossos melhores treinadores, médicos, massagistas e fisioterapeutas.

Relativamente às estruturas, até temos um dos melhores Velódromos da Europa.

Mas afinal, o que é que falta?

Falta essencialmente a definição de uma política desportiva a médio-longo prazo que deve ter como missões: estruturar uma intervenção cirúrgica, no que à formação diz respeito (para que não se perca tanto potencial tão cedo); promover condições mais favoráveis à manutenção das equipas e colaborar com as mesmas de uma forma mais próxima e proactiva a nível da formação técnica nas mais variadas áreas; captação de financiamento para que sejam feitos investimentos estratégicos a nível material e estrutural, mais especificamente (mas não só) nas seleções nacionais e estruturas de apoio às mesmas.

Exposto o cenário actual, levanta-se a questão: E se Portugal fosse a maior incubadora de ciclistas da Europa?

A resposta é simples: só ainda não é, porque ainda não se estruturou uma resposta específica relativamente a essa possibilidade, muito por via da ausência de política desportiva. Digo isto, porque está de facto reunida a maior parte das condições necessárias para que isso aconteça.

A nível geográfico temos uma localização privilegiada a nível estratégico relativamente à convergência dos continentes Europeu, Americano e Africano. O que pode facilitar o intercâmbio entre equipas nacionais e internacionais. De facto, falta muita mobilidade às equipas de formação nacionais, o que é compreensível dados os seus orçamentos, mas se não vão as nacionais, que se criem condições para virem mais estrangeiras.

A nível material e estrutural, ainda tem que existir mais investimento por parte das organizações de maneira a melhor promover e credibilizar os eventos desportivos existentes, mas para uma primeira fase, estão reunidas as condições mínimas.

A nível de competitivo, somos dotados de um calendário ideal para que se comecem a preparar os próximos grandes valores da modalidade. Temos a dificuldade e extensão ideais.

A nível de conhecimento e acompanhamento científico, apenas faltam alguns meios para que o “volume de conhecimento” possa ser executado na sua plenitude, uma vez que, neste campo, estamos muito bem apetrechados!

Onde estamos menos bem, é na parte do financiamento e apoio por parte das entidades que governam o desporto nacional, algo que pode ser justificado, em parte, pela conjuntura político-económica do nosso país. Mas acredito, que se este projeto ficar bem definido e for bem apresentado, pode ter mais sucesso nestes campos dada a sua natureza internacional.

Vendo tudo isto de um ponto de vista mais abrangente, o encadeamento de todos os meios, experiências e conhecimentos, traduzir-se-á numa sedimentação e crescimento da modalidade, mesmo a nível qualitativo, repercutindo efeitos positivos em todas as partes envolvidas.

Em suma, esta é apenas uma base para uma possível solução, uma vez que um bom trabalho realizado desde a formação fará refletir os seus resultados ao longo da carreira/percurso do/a ciclista o que, por sua vez, compreende todo o espectro de atletas que compõem esta bela modalidade.

Boas pedaladas, e um Feliz dia Internacional do Ciclista,

José Correia

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