Ciclismo em Portugal – O que faz falta?
No seguimento do artigo sobre a Volta ao Algarve, debrucei-me um pouco sobre o que eventualmente faria falta ao ciclismo português. Investiguei, aglomerei informação e cheguei à conclusão de que existem vários espaços por preencher, e que sem qualquer dúvida, enriqueceriam e muito, o ciclismo nacional.
Para produzir a análise mais séria e profunda possível, tive em conta as perspetivas que considero fundamentais para o ciclismo em geral: a do público, do atleta, das equipas e dos organizadores.
Infelizmente alguma estagnação e monotonia, e uma pirâmide etária invertida, têm caraterizado o ciclismo profissional em Portugal. Reúnem-se os mesmos atletas, com poucas ou nenhumas novidades em termos de projeto e dá-se início a mais um calendário competitivo. Continuamos a ver e a aplaudir os mesmos mas sempre à espera de um desfecho diferente, felizmente, a imprevisibilidade desta modalidade ainda a sustenta. No fundo, é a ânsia por algo novo na época seguinte que nos alimenta a curiosidade e nos mantém ligados à modalidade.
Aqui, surge o problema de “utilizar a mesma receita de anos anteriores”, que para além de dar o mesmo resultado sempre que aplicada, um dia mais tarde, esse mesmo resultado deixará de ser “consumido” porque o público se cansou das repetições constantes de cenário. De facto, a gestão/manutenção das equipas e organizações raramente é pensada a médio/longo prazo confiando sempre na “receita do costume”.
Não é excessivamente ambicioso pensar mais longe, muito pelo contrário, é prudente e inteligente fazê-lo, pois permite antecipar movimentações e gerar polos dinamizadores de atividade capazes de agitar toda a dinâmica do “ecossistema desportivo”. Naturalmente, terão que ser projetadas iniciativas de maneira a criar um benefício positivo geral uma vez que os atletas precisam das equipas, as equipas precisam umas das outras, as organizações precisam das equipas e o público precisa do espetáculo.
Então, existem soluções? Quais?
No sentido em que, neste momento apenas “existe” a Volta a Portugal para o grande público (e apenas ocupa 10 dias do calendário competitivo), diz muito sobre a falta de efeito polarizador dos restantes eventos e sobre espaço que ainda existe para serem introduzidas ou reintroduzidas competições.
E que competições?
Alguém se lembra da clássica Porto-Lisboa? Pois é, falta uma Clássica com peso, dureza e mística. É preciso diversificar o tipo de corrida e de ciclista a ganhar, que por consequência, produz um novo espetáculo, atrai mais público, projeta novos nomes e abre portas para novas oportunidades.
Normalmente, os sprinters/roladores a competir em Portugal não têm o espaço nem o reconhecimento merecido, muito por culpa das funções que normalmente lhes são atribuídas (gregários). Porquê? Porque não existem competições com peso nem projeção suficiente para que as equipas orientem a sua estratégia para que sejam estes últimos a vencer, e assim, continua o ciclo vicioso.
Mas é só uma Clássica que faz falta?
Não, falta dinamizar o ambiente do ciclismo profissional em Portugal e ainda existem momentos no calendário que estão subaproveitados. Neste momento, a Volta ao Algarve é dos melhores “training camps” do mundo. Porque não aproveitar para manter os ciclistas/equipas estrangeiros/as em solo nacional e realizar treinos/estágios? (Logicamente que estes treinos/estágios dependerão muito da periodização e distribuição da carga de treino de determinado plantel que cá esteja. Mas não deixa de ser uma hipótese!) Porque não introduzir a Clássica depois da Volta ao Algarve? Era um bom ensaio para as primeiras Clássicas da temporada! O ciclismo nacional e as economias locais agradecem! Trocam-se conhecimentos e experiências, gera-se muita visibilidade e impacto publicitário/económico e acabam por “afinar” a sua preparação para os principais objetivos!
Em jeito de conclusão, muito mais coisas fazem falta ao ciclismo português mas optei por explorar uma via diferente. Muitas vezes, o primeiro passo para um melhoramento, está em conseguir mudar de perspetiva relativamente às possíveis soluções.
Boas Pedaladas,
José Correia


