Volta ao Algarve – A Volta que “Morre na praia…”

Por ter cumprido mais uma época de exames na Faculdade não pude escrever com a frequência que desejava. Mas confesso-vos, já escrevi sobre muitos temas, mas este, deu-me um gosto especial! A Volta ao Algarve está mesmo aí e escrever sobre a mesma envolveu pesquisa e muita reflexão. De facto, é um evento sensível por todos os motivos e mais alguns, e para quem o conhece, sabe que o título é ajustado.

Ajustado!? …Perguntam vocês… Pois, para não variar, não temos sido capazes de valorizar e de criar mais-valia em torno do produto Português (sim a Volta ao Algarve é Made in Portugal)! No fundo o que o termo “morre na praia” quer dizer, é que a Volta ao Algarve está muito aquém do que pode ser porque pura e simplesmente não estamos a conseguir alcançar a real dimensão que esta Volta tem e, em consequência, desinvestirmos por falta dessa capacidade de “visão”.

Vejamos, a Volta ao Algarve é uma prova por etapas inscrita no Calendário Europe Tour (2ª divisão do Ciclismo Mundial – equivalente à “Liga Europa” para os amantes do futebol.) na qual podem participar apenas equipas do escalão Continental (3ª divisão do profissionalismo mundial), Continental Profissional (2ª divisão do profissionalismo mundial) e World Tour (1ª divisão do profissionalismo mundial). Nas últimas edições, a esmagadora maioria dos inscritos pertenciam ao escalão World Tour e Continental, curiosamente, o escalão que menos “espaço” ocupou no pelotão da Volta ao Algarve foi o Continental Profissional (na última edição: 8 equipas World Tour, 9 Continentais e 5 Profissionais Continentais). É um evento com uma mística, história e prestígio muito próprios. Já teve como vencedores vários ciclistas que são referências de nível mundial, a título de exemplo: Cássio Freitas (1993); Alessandro Petacchi (2007); Alberto Contador (2009/2010); Tony Martin (2011/2013) e Michal Kwiatkowski (2014).

Continuando, a Volta ao Algarve tem uma posição chave no calendário. As condições meteorológicas, o perfil altimétrico e extensão das etapas, são argumentos de peso para testar toda a preparação realizada durante o inverno e partir de aí retirar conclusões sobre o que está bem e sobre o que está mal para dar continuidade a todo o trabalho necessário para ter uma boa época, e isto, não se limita aos ciclistas uma vez que toda a estrutura das várias equipas presentes pode ter sofrido alterações, e um evento como este, permite reestabelecer rotinas, procedimentos internos/logística interna e até testar novos equipamentos de maneira a que no decorrer do restante calendário nada falhe! Especialmente no que aos objetivos principais diz respeito!

Só para terem uma ideia, os atletas e as equipas nem vêm à Volta ao Algarve por causa dos prémios monetários envolvidos (são relativamente baixos em termos de valor monetário quando comparados com outras provas semelhantes da mesma categoria UCI), vêm mesmo, pelo prestígio e pela grande mais-valia que este evento representa para o resto da sua temporada.

Simplificando, haverá melhor “Showroom” de “protótipos” de campeões para o restante calendário Mundial!? Não! Aliás o próprio Alberto Contador referiu várias vezes o quão importante foi a Volta ao Algarve para os seus sucessos na Volta a França!

Então, já começaram a interiorizar o verdadeiro potencial e dimensão da Volta ao Algarve!?

Pois… mas ainda falta qualquer coisa… As palavras “Showroom” e “protótipo”, para além de soarem bem, têm o conceito de exposição fortemente associado, e é aqui que começam os problemas. Não se compreende como é que um palco de tanto prestígio e com tanta exposição (potencial) não tem uma transmissão televisiva. Compreendo que uma transmissão televisiva seja altamente dispendiosa e que traga complicações logísticas acrescidas, mas é um ponto a analisar e que certamente merece outro investimento. “O produto não cresce se não for desenvolvido, apostem de igual forma e terão sempre os mesmos resultados!”. Afinal, é das poucas vezes, se não a única, em que podemos ter os melhores do mundo do ciclismo a competir em Portugal e contra os ciclistas portugueses.

Por curiosidade, criei uma pequena sondagem para saber se o público conhecia a Volta ao Algarve, e sem surpresa, a maior parte não conhecia! Porquê? Porque o problema não é só a transmissão televisiva… A própria promoção interna é muito fraca ou inexistente sendo que o resultado é que os próprios portugueses não a conhecem, e alguns desses portugueses, são utilizadores de bicicleta!

De facto, custa compreender como é que um evento destas proporções não é reconhecido nem explorado da melhor maneira. Afinal de contas é um espetáculo desportivo onde estão presentes os melhores do mundo…. Infelizmente, o desinvestimento e a falta de fôlego têm caraterizado a organização da maior parte dos eventos velocipédicos nacionais. Ainda por cima, com o agravamento da conjuntura económica, muitos eventos poderão ser suprimidos e até extintos!

Em jeito de conclusão, não deixem que a Volta ao Algarve morra na praia, promovam-na como merece! O retorno não tem que ser imediato, apenas tem que ir existindo, não tenham pressa, estabeleçam o “benchmarck” da marca Volta ao Algarve e trabalhem o produto! Certamente alguns progressos existirão!

Boas pedaladas,

José Correia

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